Com o apoio da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM), três brasileiros seguem em direção à COP30 com uma missão em comum: representar seus territórios e reafirmar que a Amazônia é feita de gente, histórias e resistência. Vindos de realidades distintas: o Território Karipuna, em Rondônia; o povoado São Domingos, no Maranhão; e o arquipélago do Marajó, no Pará; eles levam à conferência do clima as vozes de comunidades que enfrentam, todos os dias, as consequências da destruição ambiental.
Até a COP30, publicaremos uma nova história por dia, compartilhando as vozes, os rostos e as lutas que fazem da Amazônia um território vivo.
A REPAM, que há mais de uma década atua na defesa dos povos e territórios amazônicos, vem fortalecendo lideranças locais e articulando a presença dessas vozes em espaços internacionais. É através desse trabalho que histórias como as de Ahé Kawahiba, Eliane Gentil e Rafael Monteiro cruzam fronteiras e ganham visibilidade no debate climático global.
Ahé Kawahiba, a resistência Karipuna
Aos 39 anos, Ahé Kawahiba, nome tradicional de Adriano Karipuna, nasceu no Território Indígena Karipuna, em Rondônia. Filho de Abagaju e Katica Karipuna, cresceu vendo sua terra ancestral ser ameaçada por grileiros e madeireiros.
Atualmente cursa Direito na Faculdade Católica de Rondônia – FCR e transformou a indignação em luta organizada. Foi tesoureiro da Associação dos Indígenas Karipuna-Abytucu-Apoika e hoje preside o Instituto Etno-Ambiental Tangarei Naripuna (Eitka).
“Eu nasci dentro da floresta e vi ela mudar. Vi árvores sendo cortadas, gente entrando onde não devia entrar”, conta. “A gente luta não só por terra, mas pela vida. A floresta é o nosso lar, é onde está a história do nosso povo.”
Sua atuação o tornou uma das principais vozes na defesa do território, unindo mobilização local e articulação nacional por meio de redes como a Articulação Agro é Fogo, que reúne mais de vinte coletivos e organizações em todo o país. “Estar na COP é levar o grito da Amazônia para o mundo. É dizer que estamos vivos e resistindo”, afirma.
Na COP30, Ahé leva a urgência de proteger a floresta e os povos que a mantêm viva.
No povoado São Domingos, município de Paulino Neves, no Maranhão, Eliane Gentil lidera um grupo de pequenos produtores rurais que, há quatro anos, une economia solidária e defesa ambiental. À frente do Grupo Produtivo e do Sindicato de Paulino Neves, ela coordena a produção de artesanato e doces de buriti, atividades que geram renda e fortalecem o senso comunitário.
“Desde 2020 que a gente se juntou pra trabalhar de forma coletiva. Foi quando começamos a ver que, se a gente cuidasse do território e da natureza, o retorno vinha pra todos”, explica. “O nosso doce de buriti, o nosso artesanato, tudo vem da terra. A gente quer mostrar na COP que o desenvolvimento pode ser solidário e sustentável.”
Eliane embarca para a COP30 levando produtos da sua comunidade e a mensagem de que a sustentabilidade nasce do trabalho coletivo. “A gente está representando nosso território, levando o que é nosso, o que vem da natureza”, diz. Sua trajetória, iniciada em 2020 com apoio de editais da CNBB e da REPAM, reflete o protagonismo das mulheres na defesa do meio ambiente.
“Eu quero que as pessoas entendam que defender o território não é só protestar. É plantar, é colher, é cuidar. Isso também é resistência”, completa.
jó, no Pará, vem um terceiro representante: um morador do Rio Guajará, em Afuá, cuja vida é marcada pelas marés e pelo ritmo do açaí. Nos últimos anos, ele tem visto as mudanças climáticas alterarem profundamente o cotidiano da região.
“A gente sente na pele as mudanças. As águas não sobem mais como antes, o peixe morre com o calor, o açaí não amadurece no mesmo tempo. Tudo ficou diferente”, descreve. “O que acontece com o clima não é uma coisa distante pra nós. É o que muda a nossa comida, o nosso trabalho, o nosso dia a dia.”
Ribeirinho, ele fala com emoção sobre a perda do equilíbrio natural que sustentava o modo de vida amazônico. Seu propósito ao ir à COP30 é dar testemunho direto dos impactos das mudanças climáticas sobre quem vive deles. “A gente quer ser ouvido. O que acontece aqui é resultado do que se decide lá fora”, diz.
“Desejo que as grandes potências pensem que este é o único mundo que temos”, afirma.
Territórios vivos
As trajetórias de Ahé, Eliane e o ribeirinho do Guajará se entrelaçam na defesa da vida na Amazônia. Eles não levam apenas discursos à COP30: carregam histórias de resistência, solidariedade e pertencimento. Cada um, à sua maneira, representa o território que o formou, lembrando ao mundo que proteger o clima é, antes de tudo, proteger as pessoas que dependem da floresta para existir.













